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  • AgendaApós onze anos, Beatriz Milhazes volta a expor no Rio de Janeiro no Paço Imperial

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    PAÇO IMPERIAL RECEBE, EM AGOSTO, A MAIOR MOSTRA JÁ DEDICADA AO TRABALHO DE BEATRIZ MILHAZES

    Última individual da artista na cidade aconteceu em 2002

    Após onze anos, Beatriz Milhazes volta a expor no Rio de Janeiro. No dia 29 de agosto será inaugurada no Paço Imperial, prédio histórico localizado no centro da cidade, a mais abrangente mostra panorâmica de sua produção, reunindo mais de 60 obras, entre pinturas, colagens e gravuras, além de um grande móbile concebido especialmente para o espaço. Com patrocínio do Banco Itaú e da empresa norueguesa de energia Statoil, curadoria do crítico francês Frédéric Paul e realização da Base7 Projetos Culturais, a exposição Meu Bem apresentará um conjunto dos trabalhos mais marcantes da artista desde o final dos anos 1980, provenientes de diversas coleções públicas e particulares, do Brasil e do exterior. Após a temporada carioca, prevista para terminar em 27 de outubro, a mostra seguirá para o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, onde ficará de 21 de novembro de 2013 a 23 de fevereiro de 2014. Ainda no mês de novembro, a galeria paulistana Fortes Vilaça, que representa a artista, exibirá seus trabalhos mais recentes. Para 2014, está prevista a primeira mostra itinerante de Beatriz Milhazes por museus norte-americanos, tendo como ponto de partida o Pérez Art Museum Miami – PAMM, além dos lançamentos do catálogo raisonné de sua obra, em edição de luxo pela Taschen, e de um documentário sobre a sua trajetória dirigido por José Henrique Fonseca.

    004.2006.Beleza pura.Foto Isabella Matheus

    As últimas grandes exposições institucionais de Beatriz Milhazes no Brasil aconteceram em 2002 (CCBB-RJ) e 2008 (Pinacoteca do Estado – SP). Apesar de a artista ter continuado a expor sua produção recente em mostras esporádicas em sua galeria paulistana, intercalando-as com uma movimentada agenda internacional, Meu Bem é uma oportunidade única de rever obras históricas, conhecer os últimos desdobramentos de sua produção e identificar neste vasto conjunto alguns dos fios condutores, procedimentos e estratégias compositivas que a tornaram um dos grandes destaques da arte contemporânea no mundo neste início do século XXI. Ao longo dos últimos anos, ela participou de diversas bienais, como as de Veneza e de São Paulo, e realizou 30 individuais em onze países, com destaque para as da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) e da Fondation Cartier (Paris), além de dezenas de coletivas, entre elas a mostra The Encounters in the 21st Century: Polyphony – Emerging Resonances, no 21st Century Museum of Contemporary Art (Kanazawa, Japão).

     

    É possível apontar como aspectos mais evidentes de sua obra a intensa relação com a arte popular brasileira, o diálogo com segmentos de arte aplicada, entre eles o artesanato e o bordado, bem como uma proximidade fértil com três momentos importantes da história da arte brasileira: o barroco, a antropofagia e o tropicalismo. São também aspectos centrais da obra de Beatriz Milhazes a organicidade das formas e o intenso jogo cromático, que estabelecem uma relação de complementaridade e contraste com uma estrutura compositiva cada vez mais rigorosa. “Ela reivindica laços fortes com a modernidade europeia e está em pé de igualdade na cena contemporânea, na qual abala os códigos muitas vezes pouco sábios da abstração”, sintetiza Frédéric Paul.

    Pode parecer estranho atribuir o termo “abstração geométrica” a uma pintura tão sensual. Mas como explica a artista, os elementos próprios desse universo mais rigoroso e formal também fazem parte do seu repertório, da mesma forma que aqueles provenientes de campos como a arte popular e o design. Além disso, “na solidão do ateliê, o que funciona é forma, cor, estrutura, composição: questões claramente ligadas à pintura abstrata e à geometria. A flor funciona enquanto cor e enquanto forma”, acrescenta ela.

     

    O percurso da exposição tem viés cronológico. Paul, que há tempos acompanha a produção da artista, procurou delinear um amplo panorama, que mais parece um passeio, entre 1989 e o momento atual. Logo de início estarão, lado a lado, a tela Me perdoa, te perdôo, de 1989, e Lavanda, de 2012/2013. Além de explicitar o intervalo de 24 anos contemplado pela mostra, os dois trabalhos também evidenciam como é rico, diverso e ao mesmo tempo coerente o percurso trilhado por Beatriz Milhazes. Não é casual a escolha do ano de 1989 – quatro anos após sua primeira exposição individual e momento já um tanto distante das primeiras experiências que a notabilizaram como uma das figuras centrais da chamada “Geração 80” – como marco inicial. É a partir daí que a artista aprimora sua técnica e passa a explorar um sistema análogo ao do decalque. A tinta passa a ser aplicada sobre uma superfície plástica, criando finas epidermes de pintura que são posteriormente “coladas” e sobrepostas na tela. Esse tipo de procedimento lhe permite um maior controle sobre o processo de composição, reduzindo drasticamente a gestualidade.

    As obras dos anos 2000, período de maturidade e de investimento em caminhos paralelos à pintura – como a colagem, a produção gráfica e os grandes projetos institucionais, de relação com o espaço tridimensional – têm um peso maior na seleção. É também a partir desta década que Beatriz Milhazes parece acentuar a busca pelo contraste entre tramas geométricas mais rigorosas e elementos figurativos de grande apelo visual como flores, mandalas, rendas, pérolas e bordados.

    Um segundo movimento de mudança, que aponta para uma maior depuração das pinturas, se faz sentir nos trabalhos mais recentes, realizados após 2010. Pertence a esse novo grupo a série Gamboa Seasons, um dos destaques da exposição. São quatro telas realizadas pela artista para a Fundação Beyeler, em Basel, na Suíça, numa experiência inédita para a artista de trabalhar com um tema predeterminado e que, além de tudo, é bastante difundido na história da arte: as quatro estações do ano. Ela confessa sempre ter tido fascínio por essas transformações atmosféricas, com implicações sobre as cores, as pessoas, a natureza… Ao iniciar o trabalho, no entanto, ficou evidente que sua própria experiência era diversa daquela dos países temperados. No Rio, cidade onde vive e trabalha, essas diferenças são mais sutis. O resultado soma 15 metros de comprimento, no qual o verão – estação alta nos trópicos – tem grande proeminência (5,0 x 3,0 metros). A escala e a exuberância cromática e gráfica vão diminuindo, juntamente com o encolhimento progressivo das telas correspondentes à primavera e outono, até chegar num inverno magro, verticalizado, de apenas 2 metros de comprimento. “Esta é uma época estranha no Rio, em que o carioca não sabe o que fazer”, brinca.

    O título, Gamboa Seasons, é – como comumente se dá na obra da artista – uma reafirmação poética de seu pertencimento a esse contexto cultural específico. Gamboa é um bairro típico do Rio de Janeiro, onde se faz o carnaval carioca. O termo também foi apropriado por ela para nomear sua primeira grande peça tridimensional, um móbile que nasceu de uma peça construída para o cenário do espetáculo de dança Tempos de Verão, de sua irmã Marcia Milhazes, que acabou adquirindo diferentes formatos até a última e derradeira versão de 7 metros de comprimento por 3 de altura, atualmente em Basel, na Suíça.

    Para o Paço Imperial, Beatriz concebeu um novo projeto. Desta vez serão cinco móbiles, feitos com os mesmos elementos da obra anterior e que parecem saídos de suas telas para ocupar e dinamizar o espaço (flores, miçangas, contas e outros elementos decorativos). A artista explica que essas peças “estabelecem uma conversa com a pintura, têm essa conexão característica do meu trabalho com a arte popular”.

     

     

    Em seguida itinerância para o Museu Oscar Niemeyer

    Temporada: 21 de novembro de 2013 a 23 de fevereiro de 2014