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    voltar para a agenda18/6/15 | quinta-feira

    Portal de Arte Moderna - Artista Alice Quaresma expõe "Além"

    Geometrias imperfeitas

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    2A produção atual da carioca Alice Quaresma é das mais interessantes não apenas pelo seu caráter movediço e migrante dentro do fotográfico, mas também por corporificar, de modo poético e singular, algumas questões pungentes para o artista contemporâneo. Em especial, podem ser frisadas as que se debruçam sobre relações, elos, nexos e dissensões de identidade e desenraizamento, permanência e deslocamento, entre outras linhas de força dentro da obra. Para a mostra Além, que se torna um novo début para a Fauna Galeria, agora na Vila Mariana _ um lócus especial dentro da geografia do circuito artístico de SP _, a artista radicada em Nova York e que teve boa parte da formação em Londres apresenta um conjunto de fotografias em que os limites e definições dessa linguagem são esgarçados com decisão, mas não deixam de se firmar dentro do campo fotográfico. Expandido, certamente, já que Quaresma parece almejar o que ela intitula como “foto-objetos”, contudo se valendo de procedimentos da pintura, do desenho, da colagem e do tridimensional. “A designação não-objeto é inteiramente adequada ao meu trabalho. […] Há certos tipos de obras que pertencem a uma mesma família. Meu trabalho não é nem arquitetura, nem escultura e nem pintura no sentido antigo ”1,declarara Hélio Oiticica (1937-1980) a Vera Martins em 1961. O nome-chave do neoconcretismo brasileiro vem a calhar na investigação visual-conceitual de Quaresma por ser um paradigma nesse borrar de fronteiras de meios, suportes e linguagens, ampliando a ressonância do projeto construtivo nacional e influente até hoje sobre as novas gerações de artistas por aqui. É relevante agora contar um pouco do percurso da artista carioca. Formada em pintura em Londres, na faculdade começou a se encantar pelo universo da fotografia, e, a seguir, passou por uma fase de autorretratos e outras de muito trabalho em estúdio, com equipamentos e estratégias fincadas numa técnica impecável. Depois, retomou a pintura e, a partir daí, conseguiu desconstruir o seu próprio processo fotográfico utilizando elementos de outras pesquisas plástico-visuais e se pautando por um despojamento formal. É quase sob uma égide de crise _ vista não no sentido negativo, e sim como propulsora de algo novo, a ser vivenciado e descoberto sob novos prismas _ que o percurso de Quaresma vem se constituindo, e hoje se desdobra numa persistente inquietação sobre o que é o fotográfico _ em tempos de circulação maximizada desse meio, algo que confere onipresença mas também uma qualidade cada vez mais rarefeita de suas especificidades _ e como ele pode se revestir de uma subjetividade e de uma presença menos tênues.

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    “Eu me interesso em lidar com o tempo, se sobrepondo e não linearmente. Quando você vê uma imagem tremida, é simplesmente o registro do tempo através da luz em um só clique (uma só imagem)”, conta ela. “Aí vem a tinta e diversos materiais que venho usando com as minhas imagens. Eu vou sempre utilizar materiais que ainda não testei. No momento, tenho usado muito a tinta, o bastão a óleo e a fita adesiva colorida.” Surge então uma abordagem mais experimental, tão defendida por Oiticica e pares, e que ajuda a Quaresma na construção de um trajeto particular, no qual houve momentos em que Demand, Hofer e os Becher foram decisivos, mas que hoje se apresentam apenas como alguns dos módulos formadores de sua obra. “Essas interferências que eu trago para o trabalho lidam com a possibilidade de trazer marcas casuais. Gestos sem muito controle e mais intuição. Há também um enriquecimento de textura e de materialidade para um papel fotográfico. E essas marcas criam momentos de surpresa.” E existe esse sentimento do ser estrangeiro, do lidar continuamente com o não pertencimento e da construção burilada não sem dores de uma memória afetiva, que pode ter correspondências de grande concretude, mas também somente de imagens e registros algo evanescentes, desfeitos. Nesse sentido, ganham importância em Além obras como Encontro, Mudanças do Tempo e Vestígios, cujos títulos revelam muito de sua temporalidade indicial, em desmanche. É algo que já estava palpável em séries anteriores como Raízes (2013) _ oceano desfocado, maciços de vegetação pujante agora retratados em preto e branco, edificações públicas e privadas outrora gloriosas e, no momento do registro autoral, menos sólidas e encorpadas. Dirigindo-se contrariamente à reprodutibilidade quase incessante da fotografia, as criações únicas de Alice Quaresma parecem desvelar, portanto, um extracampo, um novo território, para além. E aí encontram eco no incontornável pensamento de colagem do italiano Luigi Ghirri (1943-1992): “Muitos […] viram ou consideraram estas fotografias como fotomontagens; as mesmas que eu chamaria, ao contrário, de fotodesmontagens. Em larga medida, a realidade vai se transformando cada vez mais numa fotografia colossal, e a fotomontagem já ocorreu; está no mundo real”2.

    Mario Gioia, junho de 2015