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    Portal de Arte Moderna – Artista Visual Julia Debasse

    Por Patrícia Kalil, Arte Hall Rio
    patricia.kalil@artehall.com.br

    Julia Debasse e Marcos Chaves conversam sobre a exposição

    Julia Debasse e Marcos Chaves conversam sobre a exposição

    A multiartista Julia Debasse abre exposição no Rio, na Artur Fidalgo galeria. Cantora, performer e artista visual, ela surpreende por sua inteligência e paixão. Apresenta uma série de pinturas, entre elas duas dípticas, e pela primeira vez um trabalho em pirografias. Com curadoria do artista Marcos Chaves, o trabalho reúne uma combinação de imagem e texto e diferentes técnicas, posicionando Julia como uma artista de múltiplos suportes.

    As pinturas, além de apresentarem a temática da caça (que é tema recorrente na história da arte, desde pinturas rupestres), mostram homens e animais em situações inversas. “É tudo uma grande sacanagem para lembrar que a gente também é bicho”, conta. A artista apresenta 6 pinturas e faz referências à falconeria e mulheres caçadoras.

    As pirografias foram feitas em compensado naval reciclado e tratam do universo odisséico, mesclando frases de caminhão com o universo dos mares onde nossa heroína explora o mundo e narra as reviravoltas de sua trajetória. Duas delas, as maiores, fazem referência à frase de placa de caminhão “Viajo porque preciso / Volto porque te amo”, um barco para a partida e um farol para o retorno. “Tenho uma obssessão particular pela Odisséia de Homero, e pelo fato de eu ser casada com um homem que viaja muito, considero este um trabalho mais “romântico” da exposição. Outros tem, quase sempre, algo de violento e sombrio”, conta. Outra série de ex-votos trazem esculturas de mãos com suas promessas.

    Pirografia em compensado naval, 30x21cm

    “Title Song”, 2014 – Pirografia em compensado naval, 30x21cm

     

    Patrícia Kalil – Você oferece seu coração ao predador. Quem é o principal predador do homem?
    Julia Debasse – O predador é aquele a quem damos poder – acho que os maiores predadores de qualquer pessoa são aqueles em quem depositamos nosso afeto. Quem você ama pode te destruir. Meus predadores são os meus amores. Amar é se botar a mercê de alguém. Esse negócio todo de “Mais Amor Por Favor” é muito bonito, mas ninguém fala de amor de verdade quando diz isso. Porque o amor destrói tanto quanto constrói. Esse amorzinho fofura não é do que eu estou falando. E eu nem tenho muito saco para isso, para te dizer a verdade. Estou falando de uma força mais violenta. O predador do homem é ele mesmo, né? A gente tá no cume da cadeia alimentar. E negar que somos animais abre a porta para a violência. Se você sabe do que você é capaz, você consegue controlar isso. Se você nega, age com violência sem nem perceber. A negação da natureza se dá pela sua glamurização, pela sua higienização – “os animais não são cruéis como os homens”. E de fato, não são, porque na natureza “não há pecado nem perdão”, como já diz Caetano. Um animal não pode ser cruel, porque ele não tem uma palavra para isso. Nós temos. E negamos a nossa violência diariamente. Dizer que “a natureza é boa/linda/justa” é uma besteira. Ela só é. E se nós negarmos ela, ela toma conta de nós – e isso pode ter consequências trágicas.

     

    Falconeira com Falcão, acrílica sobre linho, 160x140cm

    “Falconeira com Falcão”, 2014, acrílica sobre linho, 160x140cm

    PK – Conheço pinturas suas com animais (ver tumblr da artista), onde apresenta uma combinação de mistério da natureza e animalidade do homem. Fale sobre essas situações, que envolvem sangue e, às vezes, morte.
    JD – São tentativas de tornar a minha vida mundana em algo grandioso, é um exercício quase infantil. A imagem da menina com o alce sangrando é dúbia – você acha que ela está tomando conta dele, outras pessoas diriam que ela está o devorando – e esse era o objetivo do trabalho – deixar no ar. Todos esses trabalhos deixam algo que tem que ser intuído pelo espectador. Eles são um momento congelado em uma narrativa, e você, como espectador, tem que “preencher os espaços em branco”. Eu gosto disso – eu não chuto pra gol, eu dou o passe, cabe a quem está vendo finalizar a jogada. E você tem razão, sempre tem a ver com as pessoas em situações em que elas agem por instinto. A mãe protege seu filho instintivamente, o cara vai lá e mata o bicho feroz que o ameaça, a mulher cuida ou devora um animal ferido. Gente sendo bicho.

    PK – Você traz o universo de Alice para essa narrativa, com Dodo. Também há outros quadros com uma temática mais lúdica. Como o universo materno influencia o seu processo criativo?
    JD – Eu não pensei na Alice neste trabalho – eu nunca li Lewis Carrol, acho que só vi o filme da Disney muito pequena. Eu estava pensando no animal, mesmo, um bicho desengonçado que foi caçado até a extinção, um bicho que só existe, visualmente, para nós, através de retratos feitos pelo seu algoz. Tem algo de profundamente intrigante e triste nisso. Bem, não sei se tem a ver com a maternidade. Acho que toda mulher tem em si esse contato mais próximo com a natureza, com a violência da natureza. A gente vê sangue todo mês. Quanto à temática lúdica, acho que isso acontece por aquilo que eu já falei antes – o meu desejo de permitir que quem veja o trabalho possa se projetar nele. Muitos artistas se orgulham de fazerem trabalhos bem amarrados – eu gosto de ter pontos sem nó, para que o outro posso terminá-lo.

    Viajo porque Preciso/ Volto porque te amo

    “Ulisses” e “Penépole”, 2013, pirografia em compensado naval – 130x110cm

    PK – Nesta exposição, além das pinturas, vai apresentar pela primeira vez uma série de pirografia. Como surgiu isso?
    JD – Olha, foi por causa da palavra. Eu nem tinha me ligado muito nisso, até um amigo falar que fazia pirografias. Eu pensei “é isso mesmo, piro-grafia, escrever com fogo? Isso tá pra mim, ó”. Achei lindo isso, de escrever com fogo. E é isso mesmo, é queimar, machucar a madeira, para transforma-la. No começo os trabalhos todos se basearam em imagens comuns às tatuagens, principalmente as mais clássicas, de marinheiros. Eu roubei muito do Sailor Jerry, um tatuador famoso das antogas, especializado em tatuagens de marinheiros, que trabalhava no Hawaii. As pirografias grandes são muito baseadas no trabalho dele – as pequenas, nem tanto. Eu acho que tatuagem e pirografia são similares na ideia de ferir uma superfície para transformá-la. Também me atraiu o fato de ser uma técnica pouco utilizada por artistas, e mais por artesões, gente que vende trabalhos manuais em feirinhas de artesanato. Eu gosto da ideia de utilizar uma técnica popular, sem prestígio no maravilhoso mundo da arte contemporânea.

    PK – O artista Marcos Chaves é seu curador. Como aconteceu essa relação?
    JD – O Marcos, antes de ser meu amigo, era amigo da família. Eu conheço ele desde antes de eu ter peito. Ele é meu amigo e um desses padrinhos que, se você tiver muita sorte, acabam aparecendo na sua vida de artista. O Marcos me deu espaço para trabalhar, e ele acreditou que eu, em algum momento, iria entender o que eu estava fazendo, que eu conseguiria amarrar essas coisas todas. E ele foi de suma importância para a montagem, para algumas ideias sobre os chassis, o modo como a montagem poderia traduzir o próprio processo de feitura dos trabalhos. São coisas muito importantes, que eu acho que as pessoas só conseguem intuir depois de alguns anos de estrada, que me faltam, mas que ele tem. Eu fico imensamente feliz e grata por ele estar junto de mim nessa empreitada.

    PK – Agora falando um pouco mais sobre a situação do artista contemporâneo e a situação da arte no mundo. O mercado seria algum tipo de predador?
    JD –  O mercado de arte pode ser um predador, se você amar ele. Eu não sou presa do mercado de arte, eu não me ponho a mercê dele. Tem artistas que viram presa do mercado de arte, por ego, por dinheiro, por prestígio. Eu não curto ir em feira de arte, me deprime profundamente estar lá como “a artista”. Eu dependo do mercado de arte como qualquer outra artista, mas não deposito meu afeto nele, não ofereço a minha jugular a este mundo. O meu mundo é outro.

    Derlon e Julia Debasse | Artur Fidalgo galeria
    Período de visitação: 22 de maio até 11 de junho de 2014
    Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 10h às 19h
    Onde: Rua Siqueira Campos, 143, 2º andar – 138/147/150
    Copacabana – Rio de janeiro RJ, Brasil
    Tel: +55 21 2549 6278