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  • Notícias[Clube Hall Rio] Suzana Queiroga na revista da EAV

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    A artista carioca fala de seu trabalho, entre desenho pintura e infláveis em matéria impecável da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Leia matéria na íntegra no site da EAV para ver vídeos e baixar portfólio da artista: http://revistaportfolioeav.rj.gov.br/edicoes/03/?p=1400

    Suzana Queiroga: todos os azuis entre céu e mar

     Texto de:  Marília Martins
    Jornalista e professora  da PUC-Rio e da EAV Parque Lage
    Suzana Queiroga

    Suzana Queiroga

    Quantos azuis existem entre céu e mar? Os tons infinitesimais dessa palheta imersa no horizonte ganham volumes variados nos trabalhos recentes de Suzana Queiroga. Os infláveis coloridos de Suzana tomam fôlego, se enchem de ar e se aprumam no espaço e convidam transeuntes para explorar suas entranhas. Bolhas gigantes que caem do alto, como gotas expandidas de chuva, ou, como ela gosta de dizer, como “olhos d’água”. Mais do que volume, os azuis ganham escala: são projetados no espaço, superdimensionados. São azuis que formam figuras, desenham contornos, exibem reentranças, fazem um jogo intrincado de transparências e velaturas, em camadas que sugerem profundidades a serem desvendadas. De onde vem esse desejo de expansão, essa imensa curiosidade pelo minúsculo? E de onde surge esse choro desabrido, prestes a desabar do alto sobre colchões de ar em que se deitaram os frequentadores de sua exposição? Para comentar as muitas veredas de seus percursos cromáticos, Suzana montou no Parque Lage um de seus infláveis mais famosos, chamado O Grande Azul. E convidou a equipe de filmagem da revista Portfolio a entrar naquela grande bolha azulada para conversar sobre essa experiência vertiginosa da cor que seu trabalho propõe aos frequentadores de suas exposições. Assim, já no primeiro vídeo desta página entramos no Grande Azul, tendo Suzana como guia de viagem.

    As muitas viagens cromáticas de Suzana são derivadas, como lembra o crítico Fernando Cocchiarale, de veredas abertas pela pintura expandida e penetrável de Helio Oiticica, pelos bichos e dobras e tessituras das duas Lygias do Neoconcretismo, Clark e Pape. Suzana sabe que a qualquer movimento construtivo interessa apenas na medida que informa um processo de descobertas. Ela aprendeu a descartar princípios normativos que limitem a invenção e valorizar a experiência artística. Por isto, as cores de Suzana são ondas a serem experimentadas. A viagem pelo interior do “Grande Azul” é sensorial: desafia o equilíbrio entre bolhas de ar, hipnotiza os ouvidos pelo ruído mecânico do motor, convida a deitar em colchões de plástico para, em seguida, mudar as cores da natureza ao redor, todas filtradas a partir dos tons azulados da pele que reveste essa imensa bolha de ar. Instalada no Parque Lage, a bolha em forma de gota d’água permitia vislumbrar novas tonalidades nos muitos verdes da mata ou no azul meio cinzento de um céu nublado.

    Os azuis de Suzana têm história. Já foram verdes, violetas e vermelhos. Já estiveram pregados em paredes, espalhados pelo chão, transitaram por mapas, aventuraram-se no voo de um balão, mancharam incontáveis folhas de papel, delinearam formas no espaço. Dos desenhos aos mapas, das anotações aos volumes, essa história se fez aos trancos e barrancos. Ou, como ela prefere dizer, teve “tropeços em paradoxos”. Nada de linhas retas. No lugar de linhas, tramas e teias. E tudo começou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Suzana participou da famosa exposição “Como vai você, geração 80?”, que revalorizou a pintura e, sobretudo, a experimentação cromática. Suzana extrapolou a pintura, enveredando pelos desenhos, por gravuras e instalações, mas sem perder de vista o estudo das modulações da cor. O processo de trabalho de Suzana faz parte das suas exposições. Desenhos, esboços, pinturas sobre papel… Tudo faz parte da trilha para chegar a um objeto tridimensional, o que permite vislumbrar a importância fundamental dos estudos de cor no seu trabalho. Com uma formação ligada à impressão gráfica, ao desenho e à pintura, Suzana transforma o embate com os materiais que trabalha em ponto de partida para chegar à maquete, a volumes e espessuras e camadas e velaturas, como quem pensa o espaço tridimensional como pinturas num campo ampliado. E mais do que isto: como universos de cor que convidam a um jogo de luz e sombra, de transparências e espessuras. As suas exposições são convites à participação do público, porque seus trabalhos incorporam a plateia.

    E como é a história dos infláveis na sua obra de Suzana? E como esses infláveis foram mudando com o tempo? Suzana pensa os infláveis como esculturas de ar e em seu processo de trabalho ela faz uma relação direta com o desenho e a pintura.

    Suzana fez sua formação na Escola de Belas Artes da UFRJ e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) e dá aulas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Em seus anos de estudo, sempre foi atenta ao trabalho de Helio Oiticica, Ligia Pape e Lígia Clark. Os relevos espaciais e penetráveis de Helio Oiticica, as superfícies modulares de Lygia Clark, o livro da criação da Lygia Pape tiveram forte influência em sua formação. Neste sentido, seu vínculo com a pintura ganhou um sentido bem diferente daquele que seria a base dos artistas da Geração 80. Suzana não tinha a mesma viceralidade e mesma carga expressiva em sua relação com a pintura. Para ela, a pintura estava mais ligada à geometria e aos estudos da percepção da cor. A passagem da tela aos infláveis aconteceu por conta do convite de um professor, João Grijó (1949-2003), um artista que transformou a reflexão sobre as formas de construção da superfície pictórica um mote para seu trabalho. Segundo o crítico Marcio Doctors, Grijó buscava a liberação do gesto de pintar de sua função clássica de representação, por meio do de um trabalho exaustivo de relevo e do emprego de um cromatismo vigoroso, com tons saturados e contrastes fortes. O convite para que Suzana enveredasse pela construção de infláveis fez com que ela não apenas pensasse objetos tridimensionais como pintura expandida com também passasse a imprimir escala ao seu trabalho. E mais do que isto: há um questionamento sobre o que está dentro e fora, que brinca com os limites do trabalho.

    O primeiro inflável de Suzana foi feito a convite do amigo João Grijó, Suzana fez um segundo trabalho com infláveis, denominado Velatura, mais uma vez chamando atenção para a relação de seus infláveis com a pintura e suas técnicas mais antigas de transparências de tinta sobre imagens.

    Antes de enveredar pelos infláveis, Suzana já fazia uma pintura fora do suporte tradicional, com telas recortadas e camadas de fragmentos, sempre em diálogo com o espaço e a parede da sala de exposição. Era uma pintura que dinamizava a sua relação com o entorno, e que, além dos neoconcretos brasileiros, também buscava inspiração na vertente americana de Elsworth Kelly.

    Começava assim uma aventura que alçou voo pelo espaço, literalmente. O próximo trabalho seria a construção de uma balão, misto de inflável e aeronave, que levou a artista a experimentar seu trabalho de arte como quem pratica um esporte radical. Voar de balão foi uma experiência inesquecível para Suzana e não apenas pelos riscos de uma aventura radical.

    Aquele balão ganharia o céu para em seguida abrir um espaço interior de reflexão sobre uma história familiar trágica: a morte do pai de Suzana num acidente aéreo. A artista conheceu o pais apenas em retratos, uma vez que ele morreu antes mesmo de seu nascimento, durante a gravidez de sua mãe. Naquele voo de balão começaria a se desenhar a experiência de imersão nesta história familiar que resultaria no inflável “O Grande Azul” em 2012 e na mostra “Olhos d’água” de 2013, duas homenagens ao seu pai. O trabalho de Suzana, assim, ao mesmo tempo que alça novos voos, muda de escala. Ela agora busca uma relação com o horizonte, com o deslocamento de perspectivas, com as imagens de sobrevoo.Neste sentido, os infláveis vieram atender e expandir essa demanda por uma relação mais dinâmica com o espaço, por uma válvula de escape dos limites restritos da parede branca. E foi uma exposição, em 2004, nas Cavalariças da Escola de Artes Visuais do Parque Lage que flagrou esse momento de transformação, essa saída da parede rumo ao espaço no trabalho de Suzana. Começava ali um questionamento em torno da percepção visual das cores e da ideia de pós-imagem. Afinal, pós-imagem, para Suzana, é a cor que se vislumbra no entrecruzar de percepções visuais diferentes, como o verde que se revela entre uma visão do amarelo que ainda não desapareceu de vista e outra do azul que começa a impregnar a visão.

    Suzana deu à sala da mostra das Cavalariças o nome de Hermes, o deus do movimento, mercurial, mensageiro entre o mundo material e as esferas celestes. Dali aos infláveis coloridos, foi um salto, no constante movimento de autoquestionamento de Suzana, desta vez para incorporar relações com o tempo em seu trabalho. De 2004 a 2013, a artista aprofundou sua pesquisa em torno das formas de percepção, da pós-imagem e, sobretudo, dos modos pelos quais um trabalho incorpora o tempo e a história. Agora, ela transita nas muitas dimensões da relação entre cor, tempo e história. As formas de percepção da passagem do tempo são, talvez, o tema fundamental das suas mostras recentes, com muitos trabalhos dedicados ao pai, morto num acidente aéreo na Baía da Guanabara.

    A morte do pai repercute ainda na exposição mais recente de Suzana, Olhos d’água, que ocupou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói em 2013. A exposição ganhou o quinto prêmio Marcantonio Vilaça-MinC/Funarte. Do teto, descia uma imensa gota de água, cristalinamente azulada, debruçada sobre os colchões no chão, onde os frequentadores eram convidados a deitar. Contemplação desse céu-mar, que completava um percurso de desenhos e fotos e pinturas em torno do tema da imersão nessa imensidão azulada. Assim, todos os azuis entre céu e mar ganham força na palheta tridimensional de Suzana. São azuis de muitas histórias, azuis que passaram por telas, paredes, que viraram videocromas, que permitiram a manipulação com líquidos que vão escorregando, e que que são impossíveis de reter e controlar, ou impedir que se misturem aos tons da vida que passa, entre melancolias e voos e mergulhos. Mergulhos no azul infinito, entre céu e mar.

    Faça o download e conheça mais sobre os trabalhos de Suzana:

    1. Catálogo Olhos d’água
    2. Texto de Viviane Matesco sobre Suzana Queiroga

     

     

     

     

     

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