Portal de Arte Moderna – Curadora de Arte Denise Mattar
Por Florence Antonio, dezembro de 2013/ Arte Hall São Paulo
Denise Mattar, umas das mais respeitadas e premiadas curadoras brasileiras, realizou exposições de Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Pancetti, Emmanuel Nassar, entre outras. Confira a entrevista exclusiva.
Arte Hall: Como você trabalha uma curadoria? Qual o seu fio condutor para ter uma exposição coerente?
Denise Mattar: Creio que a exposição de um artista deve envolver o visitante na sua personalidade. Procuro sempre trabalhar numa abordagem poética e ao mesmo tempo criteriosa, com informações que procedam de fontes seguras e também voltando às fontes primárias. Gosto de criar conjuntos ou núcleos de obras nas quais o artista desenvolve um mesmo pensamento, independente da cronologia.
A.H: Na exposição do Aldo Bonadei na galeria Almeida e Dale, teve algum ponto de partida na seleção das obras que seriam expostas? Qual foi o seu conceito para montar esta exposição?
D.M: A idéia da mostra é apresentar a totalidade do pensamento criativo de Bonadei. Para isso busquei reunir obras de arte e também costuras e bordados, que ele fez ao longo de sua vida. Apresentamos também seus escritos e poesias e uma cronologia que contextualiza sua atuação como artista. Há alguns anos eu pensava em fazer uma expo de Bonadei, por isso já tinha um mapeamento das obras que queria mostrar.
A.H: Muitas obras de artistas falecidos ficam espalhadas pelo mundo. Como foi feito o rastreamento das obras de Bonadei para a exposição? O empréstimo de obra é feito com facilidade?
D.M: Ao longo dos anos trabalhando como curadora tenho um bom conhecimento do conteúdo das coleções das instituições e de particulares, e no caso de Bonadei há o livro de Lisbeth Rebollo que é quase um catalogue raisonné. Quanto ao empréstimo há sempre algumas obras que não podem ser emprestadas por um motivo ou por outro ( falta de condições técnicas, viagens de colecionadores, utilização em exposições permanentes das instituições…) . Assim cabe ao curador, desde o início, elaborar uma lista um pouco maior, contando com eventuais substituições, entretanto, quando uma determinada obra é essencial é necessário convencer o colecionador, aí vale uma boa sedução!!!. De uma maneira geral não tenho dificuldade de conseguir empréstimos pois sou conhecida como uma profissional séria: o colecionador sabe que sua obra será bem cuidada, exposta de maneira adequada e figurando num bom catálogo ao lado de outras obras de qualidade.
A.H: Qual a maior diferença entre fazer uma exposição em um Museu e uma Galeria de arte?
D.M: A Galeria Almeida e Dale me proporcionou condições excepcionais de trabalho. Pude escolher as obras livremente, a maior parte delas é de colecionadores e não está à venda e produzimos um bom catálogo. Foi bem melhor do que trabalhar em alguns centros culturais pois não tive que participar de editais, atender solicitações estranhas, preencher formulários insanos, juntar dezenas de documentos, ou fazer prestação de contas para a Lei Rouanet… Uma felicidade!!!!
A.H: Hoje no Brasil, como você enxerga a posição do curador no mercado de arte.
D.M: Hoje temos uma inflação de curadores, de todos os tipos. O frenesi que vive o mercado de arte precisa de novos talentos o tempo todo, para ter algo diferente para oferecer aos ávidos compradores. Nesse processo o mercado ergue jovens rapidamente mas também os sepulta sem dó, e abandona artistas ótimos que não estão up-to-date. Alguns curadores saem caçando esses talentos e ficam “moldando” os artistas a seus próprios conceitos. (Creio que por isso tantos artistas sucumbem pois, nesse processo de tutela, perdem sua verdade interior). Já no circuito de arte há muitos curadores que escrevem textos para seus pares, com dezenas de notas e citações de filósofos a cada três linhas de texto, ignorando solenemente o público em geral, são textos e exposições herméticas e impenetráveis aos não-iniciados. Mas temos também excelentes profissionais, às vezes lutando bravamente e quase sem apoio, para fazer eventos de qualidade, como é o caso do Tadeu Chiarelli no MAC-USP
A.H: Você tem uma empresa chamada Curatorial Denise Mattar que faz produção cultural e realiza exposições, consultoria artística e edição de livros. Conte nos mais um pouco.
D.M: A Curatorial é uma decorrência da forma como está configurado hoje o circuito de arte, com editais e mais editais, leis de incentivo ( que não são boas) e etc. Assim para poder fazer meu trabalho tive que me tornar também produtora. Quanto ao trabalho em si tenho muito orgulho de ter realizado exposições históricas importantes como Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Ismael Nery e O Olhar Modernista de JK; exposições temáticas instigantes como O Preço da Sedução, Homo Ludens e Tékhne, e de artistas contemporâneos como Emmanuel Nassar e Hildebrando de Castro. ( tudo isso entre outros…). Recentemente fiz o livro do tapeceiro Norberto Nicola, editado pela Pinacoteca e Imprensa Oficial. Enfim, trabalho muito e sempre tive bom reconhecimento da crítica e recebi vários APCA e ABCA. Mas, gosto especialmente de ter o reconhecimento do público e procuro tornar as exposições sedutoras e envolventes, de modo que algo permaneça para sempre na cabeça do visitante, mesmo o mais leigo. Quando visitante se sente acolhido e introduzido ao universo do artista ele fixa a informação e, de modo geral fala para amigos criando o boca a boca. Minhas mostras costumam ter muito público, mas não é por acaso, é algo que busco. Mas não são block-busters…não vejo muito sentido em filas passando rapidamente em frente a obras.
A.H: Quais são os seus próximos projetos?
D.M: Estou preparando uma grande exposição para o Paço das Artes chamada DUPLO OLHAR que inaugura no dia 25 de Janeiro.É uma leitura minha sobre a coleção de Sergio Carvalho.Ao longo dos anos o colecionador construiu um conjunto que reúne os mais importantes artistas brasileiros. Seu olhar atento e amoroso, ajudou a construir muitas dessas carreiras e ele continua a apoiar novos artistas. Natural de Maceió e residente em Brasília frequenta o circuito Rio-SP e acompanha a arte produzida no Centro-Oeste e Norte-Nordeste o que garante uma representatividade nacional à sua coleção. Serão apresentados 112 trabalhos de diferentes mídias e artistas de faixas etárias diversas. Agrupei as obras em conjuntos que apresentam alguns dos principais temas que regem a arte contemporânea: Corpo, Non-Sense Stories, Memórias- Segredos e afins, Referências, Tessituras, Paisagens-Paisagens, Luz e Narrativas.Entre os artistas estão: Regina Silveira, Nelson Leirner, Rochelle Costi, Lucia Koch, Luiza Baldan, Efrain Almeida, Delson Uchoa, Ana Elisa Egreja, Marcos Chaves, Mauro Restiffe, Iran do Espirito Santo, Rubens Mano.
Também irei fazer uma expo sobre a Op-Art no Museu da Casa Brasileira e sobre a artista Maria Tomaselli no Centro Cultural Correios- RJ